Quarta-feira, 25 de Abril de 1984.
Sete horas e trinta e quatro minutos.
Um hospital, no lado leste da cidade.
Acordei em meio ao Sol radiante na minha
janela, dentro do meu quarto. Eu estava tão sedado que enxergava o amanhecer
completamente azul com tons de roxo. Não me lembro da noite anterior, mas
lembro do inferno que comecei a criar. Lembro exatamente que era uma dose pura
sem gelo daquela porcaria que me deixava longe da ansiedade. Fugir dos
problemas é muito fácil, difícil é encarar eles de frente. E quando você foge
do problema, mais alguns surgem junto e mais pesados que o anterior. Não havia
salvação. Logo a enfermeira chega, seu nome era Elisa e pedi:
- Por favor, pegue aquela cadeira e
sente-se do meu lado – falei meio hesitante.
Elisa com a sua bondade com sua experiência
na profissão, não pensou duas vezes e pegou aquela cadeira enferrujada e sentou
bem perto da minha cama. Logo ela perguntou:
- O que você deseja?
No que ela terminou a pergunta, já fui
atropelando as palavras:
- Amada, pelo amor de Deus, preciso saber
como eu fui parar aqui neste hospital e nessa cama. Preciso de todos os
detalhes! – entrei quase em desespero quando terminei de falar.
Elisa ficou muda por uns instantes, pega
minha ficha médica para saber meu nome e no fim resolveu contar o que
aconteceu:
- Cristiano, o que eu vou lhe contar vai
ser exatamente o que aconteceu, então não entre em desespero e fique atento aos
detalhes. – falou ela bem séria.
- Hoje, pela madrugada antes das duas da
manhã, uma viatura da polícia chegou neste hospital. Logo que o veículo
estacionou, entrou um soldado carregando você nos seus braços. Você estava
muito pálido, com o nariz sangrando e estava babando muito. Na hora tivemos que
colocar você na maca, aplicar soro na sua veia e levá-lo a este quarto que você
está agora conversando comigo.
- Alguém lá em cima gosta muito de você,
porque pelo estado de saúde que você chegou era pra estar na cidade dos pés
juntos. – disse ela tentando me fazer rir.
Claro, meu coração devia estar acima dos
cento e vinte batimentos e estava quase aos prantos ao ouvir aquela história.
Eu sabia o motivo dessa porra toda, mas procurei seguir a instrução dela e
fiquei calmo. Depois alguém bate a porta e abre-a bem devagar, como uma valsa
sem fim. Era o Rafael, meu melhor amigo:
- Bom dia, seu filho da puta! – disse ele
com euforia.
- Sorte a tua que tu está vivo, pra poder
ter uma segunda chance na vida.
Claro, ao ver ele caí em prantos. Era como
ver o padre quando ia confessar meus pecados, até aqueles mais cabeludos e que
eu não contaria nem para mim mesmo. Lembrei em um relapso de memória que ele
estava junto comigo na última noite. Na hora, perguntei pra ele:
- Rafa, o que aconteceu na noite passada?
Então, o semblante dele mudou. Rafael
sempre foi um cara sorridente e super extrovertido, mas esse momento me
arrepiou. Ele pegou outra cadeira do quarto, sentou do meu lado e começou a
contar toda a história:
- Cris, vou tentar encurtar a história. Mas
para variar tu teve uma recaída novamente, e foi quase que no encontro do
diabo.
Aquilo me assustou pra caralho, fiquei
super pálido. A enfermeira saiu do quarto e ele continuou:
- Cara, eram oito horas da noite e fui te
pegar em casa para irmos jantar com nossos amigos. Então tu inventou de
discutir com o Daniel e com o Luis Felipe porque eles teimavam em que tu
bebesse e tu insistia em não aceitar. Eu fui embora com eles para não te
atordoarem mais e quando fui voltar ao bar, tu sumiu! Eu me apavorei e chamei
uma viatura que tava perto de lá para me ajudar a te procurar. Te achamos quase
umas quatro quadras depois, sentado na esquina com o nariz sangrando, babando
feito um louco e com uma garrafa de absinto na mão.
Nessa hora caí em prantos. Como eu pude
fraquejar? Logo ele continuou:
- Te colocamos na viatura e corremos pra
este hospital. O soldado te carregou no colo e fiquei lá fora no atendimento
pedindo misericórdia para te internar. – disse ele já ofegante da fala.
Depois ficou aquele silêncio mórbido. O
Rafael me cumprimentou e foi embora do quarto. Fiquei sozinho refletindo sobre
a história que ele me contou e depois disso, pensei alto:
- O álcool é uma porcaria. Ele te deixa
eufórico no início e depois te destrói. Todo mundo acha na bebida a solução dos
problemas, sendo que ele é um maior e bem pior. Nem em moderação consigo mais
me socializar e beber normalmente. Preciso parar de vez, isso tá me levando
mais perto do inferno. – eu já balbuciando no fim das palavras.
Ficou aqui a lição da história, que o
alcoolismo é uma doença e que não pode brincar com ela. É uma passagem só de
ida ao inferno se não for evitada. A vida é lotada de problemas, então não crie
mais um só para se afastar dos outros.
Cristiano teve alta e pode ir pra casa.